Milícia e militância separam família Bolsonaro do início do fel em plena lua-de-mel

Tradicionalmente, a lua-de-mel de um governo com os eleitores dura mais do que muitos casamentos. Porém o caso do presidente Jair Bolsonaro parece estar num processo de desgaste que pode acelerar a chegada de uma fase de fel. Ainda assim, o atual ocupante do Palácio do Planalto é favorecido por uma onda de pseudo otimismo que permite que eventuais “derrapadas” consigam ser justificadas por desculpas esfarrapadas.

O caso mais delicado envolve o filho do presidente, o senador eleito Flávio Bolsonaro. Como se não fossem suficientes os indícios de problemas na movimentação financeira envolvendo o ex-assessor Fabrício Queiroz, a prisão de milicianos nesta terça-feira (22) colocou o filho mais velho do morador da Alvorada no olho de um furacão de uma complexa rede de relacionamentos controversos entre políticos e um estado paralelo no Rio de Janeiro. Mãe e esposa de um dos líderes do Escritório do Crime foram lotadas no gabinete dele, a pedido de Queiroz, segundo justificativa pública. Até o momento, Flávio segue se defendendo, transferindo a responsabilidade para o ex-assessor e, por enquanto, o governo federal consegue se manter ligeiramente incólume – até por estratégia de sobrevivência.

Sim, inicialmente não há qualquer relação entre os “mal feitos” de Flávio com o pai. Porém a lógica é a mesma da associação entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o filho dele, Fábio Luís, mais conhecido como Lulinha. A diferença é que existe a tal régua flexível para medir os diferentes lados (lembre aqui).

Por mais que existam suspeitas de irregularidades envolvendo o primeiro filho, ainda aparecem fãs que preferem crer na teoria da conspiração de que Flávio é alvo de uma ação orquestrada entre Coaf, Ministério Público e imprensa, do que em qualquer outro argumento. No entanto, o doce começa a ser paulatinamente substituído pelo amargo de um discurso diferente da prática cotidiana. E não há nada de novo nisso.

Saindo do foco de Flávio, Bolsonaro pai estreou em Davos no Fórum Econômico Mundial como um protagonista a ser relegado ao papel de coadjuvante. O discurso de menos de 10 minutos em um dos principais painéis do encontro foi frustrante na avaliação da maioria dos analistas, já que a objetividade da fala conseguiu esconder a falta de profundidade em temas econômicos, principal foco do fórum de Davos. Ainda assim, o presidente conseguiu angariar elogios do pior tipo de cego, aquele que não quer ver.

Para completar a construção da narrativa de que Bolsonaro é maior – e melhor – do que qualquer crítica feita a ele, duas questões chamam a atenção. Mesmo que tenham circulado rumores de que o presidente não falaria com a imprensa, o titular do Planalto teve breves conversas – sem polêmicas – com jornalistas. A segunda foi a “escapada” de Bolsonaro para almoçar em um “bandejão” de um supermercado ao invés da pompa imaginada para encontros envolvendo chefes de Estado. É o desenho de um “presidente do povo”, “gente como a gente”.

Por enquanto, o presidente da República tem conseguido ter certo controle sobre a forma como a população– ou ao menos os eleitores dele – reage a ele. Foi assim com a “lacração” ao rebater uma provocação de um jovem que desejou que o avião dele caísse, por exemplo. Agora, quer Bolsonaro queira ou até mesmo os fãs deles desejem, quer não, há um clima de desconfiança que pode antecipar o fim dos bons ventos prometidos pelo novo governo.

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